UTI

Meu amor respira por aparelhos
Suspira, ferido
Meu amor espancado, quebrado, moído
Meu amor destruído
Oscila, abandonado à própria sorte
Meu amor esmagado
Rasgado, sofrido
Meu amor destroçado
Retalhado de cortes
Agoniza,
Paralisado,
Entre a vida e a morte.

Solidão

A solidão da noite me corta
Me entorta, me rasga
O silêncio da noite me oprime
Me fere, me cala
O escuro da noite me assusta
Me abala, deprime
O frio da noite me gela
me seca, devasta
A noite, tantas vezes amiga,
Justo ela, tantas vezes sublime,
Hoje me fere, me afoga, me mata
hoje,
É só crime

Ressurreição

Se é preciso a morte,
que eu morra.
Sem amor e sem destino.
Morra completamente
indigente e clandestino.
E onde o corpo não houver,
nem a carne nem a vida,
quem sabe a sorte, a arte,
uma benção esquecida,
brote, nesse charco,
nessa terra apodrecida…
E o que um dia foi semente
Floresça,
Alta, firme, forte
E cresça
Com folhas, frutos e flores
e pássaros pousando nos galhos…