ATRIZ

(Para Juliana Spadot)

Ela traz nos olhos mil perfis
na face oculta, mil disfarces
pensa, sonha, sente e diz
enquanto finge, ama, ilude e arde

Nem pecadora nem santa
ou as duas, e muitas mais
vivendo e sonhando quanto é capaz
é uma, e ao mesmo tempo tantas

Verdadeira, mesmo em partes
inteira, mesmo em pedaços
entregue ao destino traçado

De ter no palco o divino espaço
no corpo, seu templo sagrado
e como crença, a sua arte

Mulher Oceano

Que imensidão é essa que ela traz no olhar?
Que mistérios tantos sua face esconde?
De onde emerge tamanha vastidão?
Encará-la é como olhar o mar
E morrer de medo e de paixão
entre a vontade intensa de mergulhar
e o temor profundo de perder o chão
Sua dimensão é tanta
que assombra, asssusta, abala
comove, fascina, encanta
mas quem sou eu para possuir o mar?
se um dia as suas águas quiserem me banhar
hei de me lançar com devoção
ao naufrágio
ou à aventura de navegar

O Teu Olhar

Os teus olhos, que quando olham me desnudam,
São deles meus maiores sonhos,
E meus mais puros segredos.
Deles são os meus enganos,
Meus temores, os meus medos,
Os meus momentos santos,
Os meus tormentos tantos,
Os meus mais loucos desejos.

Teu olhar que eu não esqueço,
Ainda nele canto e danço,
E Invento passos  a esmo…
E mesmo quando, esvaído em sonhos,
Ou em prantos, canso,  é nele que me aqueço…

O teu olhar que eu nem mereço
Tem sido o meu descanso,
O meu prumo, meu rumo,
Meu reencontro e recomeço.

É por isso, e muito mais, que te peço,
Se é que me tens apreço,
Por mim, por ti, por outros muitos,
E tantos que eu nem conheço,
Te peço:

– Não te apagues nunca dele…

Nudez

Sempre fui um pouco “voyeur”… Não sei se por isso, ou pelo verdadeiro encantamento que sempre tive pelo corpo feminino, me decepciono muito com a “nudez fabricada” de hoje em dia… Pelo menos essa que aparece nas revistas, ou na mídia em geral. De artimanhas do Photoshop aos tratamentos estéticos, cirúrgicos, implantes, e etc, a nudez feminina parece que deixou de ser uma revelação, uma entrega, uma descoberta. A imagem da mulher nua, de hoje, “se veste” de tantos artifícios, cuidadosamente planejados, que a sensação que me dá é de que nunca estão despidas…

Nudez de verdade tem que ser aquela que revela… Aquela que permite ser visível o mais íntimo de cada um. Com a beleza particular e única de cada indivíduo. E todas as suas imperfeições.

A Perfeição

Não me conformo com a imbecilidade humana que poda árvores, nas praças,  para que fiquem simétricas e iguais entre si… Não conheço demonstração maior de ignorância e completa estupidez com relação à vida e suas manifestações.

O homem, na sua patética arrogância, se acha capaz de tornar as árvores mais belas, podando-as, tornado-as simétricas, regulares, “perfeitas”, segundo sua idiota concepção de “perfeição”, e o pior: similares entre si. Não sabem então, que o que a beleza de uma árvora é exatamente o fato de ela ser única? Que a sua perfeição reside justamente nisso:  na sua assimetria, na sua diversidade de formas e dimensões e nas suas características exclusivas que a tornam diferentes, uma das outras, e ímpares?

Quando alguém poda uma árvore e a transforma em simetria está justamente roubando dela sua maior riqueza: a de ser de um jeito que só ela, e nenhuma outra mais, é…

O mesmo acontece com algumas pessoas: na ânsia de se encaixar em algum padrão determinado de beleza, ou de comportamento, fazem dos seus corpos, ou das suas vidas,  verdadeiros atestados da ignorância humana. Moldam-se, podam-se, padronizam-se… Buscando encaixar-se em modelos pré-estabelecidos. Não percebem como vão perdendo a graça, ao ficarem cada vez mais parecidas, umas com as outras.

Ficam como essas árvores podadas nas praças…  A gente passa por elas e sente muita pena por terem perdido o encanto e a perfeição da sua beleza única.

Poetisa

A menina poeta desliza
entre a prosa e a poesia
como quem brinca séria,
Indecisa ainda,
se discreta ou narcisa.
A menina linda, de beleza precisa,
Nem precisa motivo, idéia ou clima.
Não precisa forma nem rima.
Sua poesia é clara, leve
fresca e cristalina
como as águas de um rio
onde a gente quer se banhar…

A Mulher Ideal

Certa vez, conversando com um amigo sobre mulheres, o assunto preferido dos homens (não, não é o futebol!), aquela pergunta me pegou meio de surpresa: “como é a mulher ideal para vc?”.

Não que eu nunca tivesse pensado nisso. Essa questão, aliás, permeou boa parte da minha vida adulta. Mas descobrir que após tantos anos, e tantos amores, eu ainda não tinha uma resposta a essa dúvida, foi algo surpreendente de perceber.

Enquanto ouvia sobre sua preferência declarada por loiras de olhos azuis, eu pensava também na sensualidade das morenas queimadas de sol, na sutil sedução e candura das róseas e branquinhas, na voluptuosidade das formas generosas de umas, na perfeição delicada dos traços de outras, assim como na afrodisíaca inteligência ou na sedutora ingenuidade de algumas, me dando conta que, entre doces e selvagens, recatadas e devassas, entre anjos e demônios, eu nunca consegui definir qual o meu tipo preferido, aquela que, seja na aparência ou no jeito, fosse a mulher dos sonhos para mim.

Confesso que cheguei a cogitar a mesma resposta do guitarrista e ídolo do rock, Frank Zappa, para o qual a mulher ideal seria aquela que “é bonita, adora trepar e se transforma numa pizza às quatro da manhã”. Mas apesar de espirituosa, há uma tristeza nela que nunca me convenceu. Essa tristeza de querer que o outro (no caso “a outra”) “desapareça”, depois de saciado o desejo.

E foi pensando nisso que, como essas coisas que surgem de repente, não quando a gente quer, mas quando querem, a resposta veio assim, num estalo… E veio das paixões que eu tive. Dos meus momentos de êxtase. Das mulheres que amei.

A reposta que encontrei,  de tão óbvia e tão verdadeira, pela primeira vez me convenceu. E como essas verdades que depois de descobertas, a gente não entende terem ficado tanto tempo ocultas, respondi com a maior convicção possível:

– “As interessantes! A mulher ideal para mim é aquela com quem eu passe a noite inteira conversando, com o mesmo tesão com que passe a noite inteira trepando.”

Encanto

Você passou
Grave e serena
(como convém à uma Deusa!).
Passou…
Com os teus passos leves
E esses teus cabelos
Deixando no ar, não um perfume,
Mas um encanto,
Uma mágica presença.
Enquanto todos se agitam
à sua dura indiferença,
os meus olhos se enternecem
e o meu coração se aquieta.
Como quem recebesse uma hóstia,
ou uma benção…

Garimpo

Beleza (física) a gente encontra fácil por aí. Às pencas. Mas beleza forte, interior, iluminada, não.

Beleza assim (de verdade), é como pedra rara: às vezes a gente garimpa a vida toda e não encontra nenhuma. Às vezes, por sorte ou acaso, topamos com alguma, sem nem saber ao certo como. E ficamos, num ou n’outro caso, perplexos, estupefatos, diante da descoberta…