ATRIZ

(Para Juliana Spadot)

Ela traz nos olhos mil perfis
na face oculta, mil disfarces
pensa, sonha, sente e diz
enquanto finge, ama, ilude e arde

Nem pecadora nem santa
ou as duas, e muitas mais
vivendo e sonhando quanto é capaz
é uma, e ao mesmo tempo tantas

Verdadeira, mesmo em partes
inteira, mesmo em pedaços
entregue ao destino traçado

De ter no palco o divino espaço
no corpo, seu templo sagrado
e como crença, a sua arte

Recado

Numa dessas manhãs, em meio ao caos da cidade, e minhas tantas obrigações, me permiti parar por um instante, para um café, em frente a um jardim, acompanhado da, sempre deliciosa, leitura de Mário Quintana…
Entre um poema e outro, que falavam de meninos, de pássaros e de lua, num suspiro (de olhos fechados), sinto o vento gelado e gostoso da manhã me tocando a face, como que a dizer: “veja como a felicidade pode estar nos detalhes, nas coisas simples”…

Em tempos de angústias, e buscas de todos nós, por grandes feitos e conquistas, entendi, e agradeci comovido, o recado dos anjos…

Fixação

Com que direito o teu semblante
Invade o meu instante
E me faz poeta?
Como o teu universo
Toca o meu
E me põe a escrever versos?
De quem roubaste a chave da minha alma?
Como ousas surgir assim
E me roubar a calma
E me tirar o sono,
Como?
E como podes
Dominar meu pensamento,
Que quanto mais eu tento
Menos eu consigo me esquivar…?

Houve um Tempo

“Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno”

(Paulo Leminski)

Houve um tempo em que eu olhava a vida com os olhos de poeta…
E a existência tinha em mim  um pulso, um sentido, um ímpeto
Todo o mínimo em mim, era o máximo
A pequena luz da menor estrela era o bastante
para iluminar todo o universo
E o menor segundo,
Era o que bastava para a minha eternidade.
Descobri o amor antes mesmo da amada.
Descobri a flor, o sol, o céu, a lua e as estrelas,
Descobri o mar…
Descobri os rios, os lagos, fontes, o horizonte
Conheci o vento…
Descobri o ar.
E conheci o tempo…
E vi, com ele, a vida se esgueirar..

Os Poetas

Os poetas
São os tradutores da Alma
– dos outros!
Pois a própria alma do poeta
Divaga,
Sem calma
Pelo ôco escuro da noite
E é por isso que eu leio tão desesperadamente os outros poetas…
Para que me traduzam!