Contrastes

Quero te dizer as mais belas poesias, num ouvido
E as mais loucas perversões, no outro
Quero te acaricar delicadamente,
Com uma das mãos
E te apertar furiosamente,
Com a outra
Entre olhares e mordidas,
Dentadas e lambidas,
Ser, ao mesmo tempo,
Carinho e volúpia,
Ternura e tesão
Até te deixar tonta.
E fazer da tua confusão
O meu maior deleite
Até que,
completamente louca,
Me beije, quente,
Deleirando de ardor
Me lambuzando a boca
Enquanto implora
Por mais e mais amor…

Nudez

Sempre fui um pouco “voyeur”… Não sei se por isso, ou pelo verdadeiro encantamento que sempre tive pelo corpo feminino, me decepciono muito com a “nudez fabricada” de hoje em dia… Pelo menos essa que aparece nas revistas, ou na mídia em geral. De artimanhas do Photoshop aos tratamentos estéticos, cirúrgicos, implantes, e etc, a nudez feminina parece que deixou de ser uma revelação, uma entrega, uma descoberta. A imagem da mulher nua, de hoje, “se veste” de tantos artifícios, cuidadosamente planejados, que a sensação que me dá é de que nunca estão despidas…

Nudez de verdade tem que ser aquela que revela… Aquela que permite ser visível o mais íntimo de cada um. Com a beleza particular e única de cada indivíduo. E todas as suas imperfeições.

A Perfeição

Não me conformo com a imbecilidade humana que poda árvores, nas praças,  para que fiquem simétricas e iguais entre si… Não conheço demonstração maior de ignorância e completa estupidez com relação à vida e suas manifestações.

O homem, na sua patética arrogância, se acha capaz de tornar as árvores mais belas, podando-as, tornado-as simétricas, regulares, “perfeitas”, segundo sua idiota concepção de “perfeição”, e o pior: similares entre si. Não sabem então, que o que a beleza de uma árvora é exatamente o fato de ela ser única? Que a sua perfeição reside justamente nisso:  na sua assimetria, na sua diversidade de formas e dimensões e nas suas características exclusivas que a tornam diferentes, uma das outras, e ímpares?

Quando alguém poda uma árvore e a transforma em simetria está justamente roubando dela sua maior riqueza: a de ser de um jeito que só ela, e nenhuma outra mais, é…

O mesmo acontece com algumas pessoas: na ânsia de se encaixar em algum padrão determinado de beleza, ou de comportamento, fazem dos seus corpos, ou das suas vidas,  verdadeiros atestados da ignorância humana. Moldam-se, podam-se, padronizam-se… Buscando encaixar-se em modelos pré-estabelecidos. Não percebem como vão perdendo a graça, ao ficarem cada vez mais parecidas, umas com as outras.

Ficam como essas árvores podadas nas praças…  A gente passa por elas e sente muita pena por terem perdido o encanto e a perfeição da sua beleza única.

Poetisa

A menina poeta desliza
entre a prosa e a poesia
como quem brinca séria,
Indecisa ainda,
se discreta ou narcisa.
A menina linda, de beleza precisa,
Nem precisa motivo, idéia ou clima.
Não precisa forma nem rima.
Sua poesia é clara, leve
fresca e cristalina
como as águas de um rio
onde a gente quer se banhar…

Feitiço

A chance única que eu tinha
de fugir dos seus encantos
era enquanto não eras minha
e os desejos não eram tantos
O teu beijo era só sonho
E o teu gosto devaneio
Não sabia da tua pele
Nem do toque do teu seio

A brecha única que eu tive
de não cair na sua teia
foi bem antes de eu ouvir
teu chamado de sereia
de sentir teu fogo intenso
e o teu corpo que incendeia
quando ainda não corria
teu veneno em minhas veias

Antes não tivesse tido
O azar de te provar
Nem tivesse confundido
Minha luz no teu olhar
Porque agora estou rendido,
entregue, louco, caído,
cego, tonto e perdido,
e sem querer me encontrar

Momento

Esse amor assim tão puro,
Forjado no mais duro sofrimento
Por quê eu tanto tento
E não consigo nunca realizar?

Estará errado onde eu procuro?
Ou será a forma que eu invento?
Será que é falta de merecimento?
Ou falta de (mais ainda) tentar?

Será que só para o futuro?
Será que é preciso tempo?
E a razão do meu tormento
É não saber esperar?

A Mulher Ideal

Certa vez, conversando com um amigo sobre mulheres, o assunto preferido dos homens (não, não é o futebol!), aquela pergunta me pegou meio de surpresa: “como é a mulher ideal para vc?”.

Não que eu nunca tivesse pensado nisso. Essa questão, aliás, permeou boa parte da minha vida adulta. Mas descobrir que após tantos anos, e tantos amores, eu ainda não tinha uma resposta a essa dúvida, foi algo surpreendente de perceber.

Enquanto ouvia sobre sua preferência declarada por loiras de olhos azuis, eu pensava também na sensualidade das morenas queimadas de sol, na sutil sedução e candura das róseas e branquinhas, na voluptuosidade das formas generosas de umas, na perfeição delicada dos traços de outras, assim como na afrodisíaca inteligência ou na sedutora ingenuidade de algumas, me dando conta que, entre doces e selvagens, recatadas e devassas, entre anjos e demônios, eu nunca consegui definir qual o meu tipo preferido, aquela que, seja na aparência ou no jeito, fosse a mulher dos sonhos para mim.

Confesso que cheguei a cogitar a mesma resposta do guitarrista e ídolo do rock, Frank Zappa, para o qual a mulher ideal seria aquela que “é bonita, adora trepar e se transforma numa pizza às quatro da manhã”. Mas apesar de espirituosa, há uma tristeza nela que nunca me convenceu. Essa tristeza de querer que o outro (no caso “a outra”) “desapareça”, depois de saciado o desejo.

E foi pensando nisso que, como essas coisas que surgem de repente, não quando a gente quer, mas quando querem, a resposta veio assim, num estalo… E veio das paixões que eu tive. Dos meus momentos de êxtase. Das mulheres que amei.

A reposta que encontrei,  de tão óbvia e tão verdadeira, pela primeira vez me convenceu. E como essas verdades que depois de descobertas, a gente não entende terem ficado tanto tempo ocultas, respondi com a maior convicção possível:

– “As interessantes! A mulher ideal para mim é aquela com quem eu passe a noite inteira conversando, com o mesmo tesão com que passe a noite inteira trepando.”

UTI

Meu amor respira por aparelhos
Suspira, ferido
Meu amor espancado, quebrado, moído
Meu amor destruído
Oscila, abandonado à própria sorte
Meu amor esmagado
Rasgado, sofrido
Meu amor destroçado
Retalhado de cortes
Agoniza,
Paralisado,
Entre a vida e a morte.

O Beijo

“Não damos importância ao beijo na boca. E, no entanto,
o verdadeiro defloramento é o primeiro beijo na boca.
A verdadeira posse é o beijo na boca, e repito:
– é o beijo na boca que faz do casal o ser único, definitivo.
Tudo mais é tão secundário, tão frágil, tão irreal.”

(Nelson Rodrigues)

Tão banalizado nos dias de hoje, o beijo na boca parece que deixou de ser o símbolo maior de união, aproximação e intimidade entre duas pessoas… Beija-se qualquer um, em qualquer lugar, por qualquer motivo. Eu não… Ainda bem que sou “das antigas”. Beijo na boca, para mim, é coisa séria! Tem que ser desejado… Tem que ser merecido…

Até as putas, que se entregam sem pudores por qulaquer dinheiro, fazem de tudo… Mas beijo  na boca, não!! Isso não tem dinheiro que pague…

 

Um Sorriso como uma Flor

(À menina desconhecida, que um dia eu vi sorrir, na rua)

Um sorriso como uma flor
Sorriso de poesia
De música
Um sorriso belo
Como nenhuma pintura poderia ser
Como nenhum poema
Ou qualquer forma que o homem possa inventar.
Um sorriso único,
Num instante único,
Mas com estranho sabor de eternidade…
Sorriso de verdade,
Não desses que a gente dá,
Por desejo ou graça,
Mas que escapa
Em meio ao caos da cidade,
Alheio à nossa vontade,
E vai encher de luz os olhos
De quem, por sorte,
Passa…

Solidão

A solidão da noite me corta
Me entorta, me rasga
O silêncio da noite me oprime
Me fere, me cala
O escuro da noite me assusta
Me abala, deprime
O frio da noite me gela
me seca, devasta
A noite, tantas vezes amiga,
Justo ela, tantas vezes sublime,
Hoje me fere, me afoga, me mata
hoje,
É só crime

Adulação

“A baixeza mais vergonhosa é a adulação”
– Francis Bacon

“Puxar o saco” ou “Babar ovo” é algo realmente vergonhoso…
E se tornou comum, nos últimos tempos um tipo diferente de adulação. Não aquela destinada a obter algum tipo de vantagem ou benefício, mas uma espécie de “pacto” entre alguns, à serviço da pobreza de espírito de cada um. Uma coisa do tipo: “eu te adulo e você me adula. Assim ambos acreditamos que somos legais.” (Por vezes se manifesta também entre pequenos círculos de amigos ou pequenos grupos).

Em tempos de Facebook, redes sociais e exposição generalizada, isso tem ficado cada vez mais visível…

Da Sinceridade

Acho engraçado essas pessoas com ar superior, que enchem a boca para dizer “eu sou sincero e sempre digo o que penso”, como se isso fosse a maior das virtudes…
(Nem tenho certeza mesmo se chega a ser  uma virtude!)

É claro que lidar com alguém transparente e honesto é muito melhor. O problema da frase anterior é o “sempre”, pois nem sempre estamos interessados ou preparados para o que o outro pensa. E acho mesmo que muitas das opiniões “sinceras” deveriam ficar guardadas com cada um. Ainda mais quando não são solicitadas.

Não acho a sinceridade a maior das virtudes, o que não quer dizer que não a considere fundamental. Acho, apenas, antes dela, o respeito e o cuidado com o outro, muito mais importantes. Até porquê, nossa verdade não necessariamente é a única verdade.

Saber olhar para o outro e entender a sua real necessidade, que pode ser ouvir, ou apenas falar, desabafar, receber um abraço, um afago, ou até mesmo uma palavra amiga, que aplaque a dor momentânea, isso sim, ao meu ver, é uma das maiores (e mais difíceis) virtudes.