Recado

Numa dessas manhãs, em meio ao caos da cidade, e minhas tantas obrigações, me permiti parar por um instante, para um café, em frente a um jardim, acompanhado da, sempre deliciosa, leitura de Mário Quintana…
Entre um poema e outro, que falavam de meninos, de pássaros e de lua, num suspiro (de olhos fechados), sinto o vento gelado e gostoso da manhã me tocando a face, como que a dizer: “veja como a felicidade pode estar nos detalhes, nas coisas simples”…

Em tempos de angústias, e buscas de todos nós, por grandes feitos e conquistas, entendi, e agradeci comovido, o recado dos anjos…

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A Perfeição

Não me conformo com a imbecilidade humana que poda árvores, nas praças,  para que fiquem simétricas e iguais entre si… Não conheço demonstração maior de ignorância e completa estupidez com relação à vida e suas manifestações.

O homem, na sua patética arrogância, se acha capaz de tornar as árvores mais belas, podando-as, tornado-as simétricas, regulares, “perfeitas”, segundo sua idiota concepção de “perfeição”, e o pior: similares entre si. Não sabem então, que o que a beleza de uma árvora é exatamente o fato de ela ser única? Que a sua perfeição reside justamente nisso:  na sua assimetria, na sua diversidade de formas e dimensões e nas suas características exclusivas que a tornam diferentes, uma das outras, e ímpares?

Quando alguém poda uma árvore e a transforma em simetria está justamente roubando dela sua maior riqueza: a de ser de um jeito que só ela, e nenhuma outra mais, é…

O mesmo acontece com algumas pessoas: na ânsia de se encaixar em algum padrão determinado de beleza, ou de comportamento, fazem dos seus corpos, ou das suas vidas,  verdadeiros atestados da ignorância humana. Moldam-se, podam-se, padronizam-se… Buscando encaixar-se em modelos pré-estabelecidos. Não percebem como vão perdendo a graça, ao ficarem cada vez mais parecidas, umas com as outras.

Ficam como essas árvores podadas nas praças…  A gente passa por elas e sente muita pena por terem perdido o encanto e a perfeição da sua beleza única.

A Mulher Ideal

Certa vez, conversando com um amigo sobre mulheres, o assunto preferido dos homens (não, não é o futebol!), aquela pergunta me pegou meio de surpresa: “como é a mulher ideal para vc?”.

Não que eu nunca tivesse pensado nisso. Essa questão, aliás, permeou boa parte da minha vida adulta. Mas descobrir que após tantos anos, e tantos amores, eu ainda não tinha uma resposta a essa dúvida, foi algo surpreendente de perceber.

Enquanto ouvia sobre sua preferência declarada por loiras de olhos azuis, eu pensava também na sensualidade das morenas queimadas de sol, na sutil sedução e candura das róseas e branquinhas, na voluptuosidade das formas generosas de umas, na perfeição delicada dos traços de outras, assim como na afrodisíaca inteligência ou na sedutora ingenuidade de algumas, me dando conta que, entre doces e selvagens, recatadas e devassas, entre anjos e demônios, eu nunca consegui definir qual o meu tipo preferido, aquela que, seja na aparência ou no jeito, fosse a mulher dos sonhos para mim.

Confesso que cheguei a cogitar a mesma resposta do guitarrista e ídolo do rock, Frank Zappa, para o qual a mulher ideal seria aquela que “é bonita, adora trepar e se transforma numa pizza às quatro da manhã”. Mas apesar de espirituosa, há uma tristeza nela que nunca me convenceu. Essa tristeza de querer que o outro (no caso “a outra”) “desapareça”, depois de saciado o desejo.

E foi pensando nisso que, como essas coisas que surgem de repente, não quando a gente quer, mas quando querem, a resposta veio assim, num estalo… E veio das paixões que eu tive. Dos meus momentos de êxtase. Das mulheres que amei.

A reposta que encontrei,  de tão óbvia e tão verdadeira, pela primeira vez me convenceu. E como essas verdades que depois de descobertas, a gente não entende terem ficado tanto tempo ocultas, respondi com a maior convicção possível:

– “As interessantes! A mulher ideal para mim é aquela com quem eu passe a noite inteira conversando, com o mesmo tesão com que passe a noite inteira trepando.”